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sábado, 17 de setembro de 2011

A Despedida do Velho Leão


Assim que o portão se abriu
Todos os cachorros fugiram
Mas bastou um assobio para retornarem
Todos menos o Leão

Encontramos ele deitado na esquina de nossa antiga rua
O velho Leão
Cego de um olho, surdo e que mal andava
Deitou-se no começo de nossa antiga rua

Passei alguns minutos com ele
Mas ele não queria voltar
Então decidi dar uma ultima volta
Com o velho Leão pela nossa antiga rua

Tudo era diferente na nossa antiga rua
As casas
As pessoas
Os jardins
Até mesmo os cachorros

E o velho Leão
Cego de um olho, surdo e que mal andava
Parou em frente ao portão
Daquela que um dia foi a nossa antiga casa
A casa em que ele nasceu e cresceu já não exista mais
Naquele lugar havia uma nova casa, com novas pessoas, um novo jardim e novos cachorros

Mas o velho Leão era cego
Passeou pela nossa antiga rua exatamente como era
E visitou nossa velha casa como ela sempre foi
Naquele dia ele esteve de volta
Correndo junto com seus irmãos ainda filhotes

domingo, 22 de maio de 2011

Da última vez

Nunca me esqueci daquela vez que você me telefonou
Nem da primeira vez que te vi
Ou da última vez que nos falamos
Ou melhor, mal nos falamos

Depois de tanto tempo separados
Senti um olhar às minhas costas
Virei e te vi
Oi, você disse
Oi, respondi
E não disse mais nada

Grande orgulho
Grande arrependimento

sábado, 21 de maio de 2011

Para Winnie Cooper no dia de seu casamento

Que o futuro seja belo
E lhe reserve coisas boas
Que eu bobo no passado
Não ousei prover

Que o presente seja terno
Com amigos ao redor
Que a festa seja linda
Mas não vou comparecer

Que o dia quatro seja eterno
E que o outro seja grande
E tenha as qualidades
Que eu não quis ter

Lembrarei sempre fraterno
Para que isso nos liberte
E nunca mais choremos
Pelo não acontecer

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Atrás da palmeira
Eu a observei

Bela e mágica
Iluminada pela fulgurante chama da fogueira
E pelo luar naquelas areias tão finas

O som de Bob dedilhado
Espalhado pelo vento

Mas escondido atrás das lembranças
Nem me movi


quinta-feira, 15 de julho de 2010

Dois caminhos


Sigo em linha reta ao objetivo
Caminho altivamente sem desvios
Ultrapasso os obstáculos
Derroto os desafios

Sujo meus pés de lama
Atravesso cordilheiras e desfiladeiros
As pedras do caminho não me detêm
Enfrento cobras e crocodilos

Sem me desviar por um milímetro
Chego ao topo
Atinjo o objetivo
Mas sozinho



Por você sigo tortuosamente
Vacilo nas encruzilhadas
Às vezes mudo de idéia
Não sei ao certo para que lado vou

Sigo em círculos
Me perco
Retorno alguns trechos
Não tenho guia

Me afasto do objetivo
Às vezes me aproximo
Esse caminho não é direto
Mas é o único verdadeiro

sábado, 22 de maio de 2010

Curtas linhas


Se eu fosse um poeta
Escreveria um soneto
Belo como Vinicius teria feito

Como não sou
Então me contento
Com parcas linhas
Cheias de sentimento

Minha musa não saberia
Envergonhado de minha arte
Para ela eu nunca mostraria

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Algumas respostas


Minha princesa
Desculpe se te firo
Só faço isso porque te amo

Me perdoe por não demonstrar
Mas não duvide que eu sinta

Sei que existem os dias difíceis
Amar nos fáceis teria pouco valor

Acredito num futuro longo
De cujo passado
Apenas as coisas boas restarão

Às vezes me desfaço da forma
Pra valorizar o conteúdo

Saiba que terás sempre meu amor
E que estarei sempre ao seu lado
Tanto nos bons como nos maus dias

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Sem nome


Só não canta a pessoa amada
Quem não sabe o valor que tem
Pois é com pequenos ou grandes gestos
Que a chama se mantém

Quem se encanta e se entrega
Descrente de dor
Pula sem temer a queda
Nem duvidar do amor

Somente quem compõe
Sem vergonha e sem pudores
Não perde tempo e nem se opõe
Das certezas e dos amores

sábado, 8 de maio de 2010

A dúvida dela


Estou apaixonado
Mas ela não sabe

Corro atrás
E ela não percebe

Digo coisas
Que ela não ouve

Faço pedidos
Mas ela não cumpre

Espero por ela
Que não se decide

O Soldado ao Final da Guerra


Entre escombros de metal retorcido
E terra remexida
Ao final da guerra
O soldado caminhou

Entre corpos apodrecidos de tanques e veículos
Ossos e crânios de velhos adversários e aliados conhecidos
O soldado procurou

Entre a destruição de seu país
De seu mundo e de sua vida
O soldado revirou

No meio do todo este nada
Que era um monte de tudo
O soldado finalmente encontrou

O velho anel de prata
Que no bolso
Por toda a guerra carregou
Enquanto sonhava com o retorno
Aos braços da amada

Mas ao lembrar do valor
Daquele pedaço brilhante de metal circular
Que estava todo sujo de terra
Derramou uma lágrima

A compreensão de que só restara ele
E que seria só daquele dia em diante
De todas as perdas e feridas
Essa era a que mais doía
A que mais feria...

Quanto ao anel
Em vez de guardar novamente no bolso
Como fizera durante toda a guerra
Preferiu enterrá-lo bem fundo na terra remexida
Entre metal retorcido, tanques apodrecidos
Entre ossos e crânios conhecidos

De conforto aquele anel não mais serviria
Como durante toda a guerra havia sido

Em vez de consolar
A dor da solidão temporária
O anel personificava
A eterna lembrança do que nunca voltaria


segunda-feira, 3 de maio de 2010

Fim


É no final
E somente no final

Quando o silencio é mais alto que o farfalhar das árvores
E já suplanta o som da chuva

Quando as feridas já parecem cicatrizadas
Desde que não tocadas

Quando o calor das brigas
Vira um mero e distante sussurro

Quando o sentimento não dói
E nem alegra

É nesse final e somente nele
Que deve ser iniciado o doloroso trabalho de destruição das fotos

Pois no final
Já não há motivos
E nem tempo
Para arrependimentos

sábado, 24 de abril de 2010

A Mentira


Ah, a mentira!
Companheira nas noites sombrias!
Falso conforto das almas vazias!
Amiga de todas as formas de vilania!

Feia e fria
Suja, esfarrapada
E ladina!

Ou elegante e bonita
Esbelta, perfumada
E altiva!

Não importa o formato
Nem mesmo o motivo!
És tu, ignóbil e traiçoeira
Mentira!

Mas, o que será a mentira?
Será a cobra que morde aos incautos e crédulos?
Um agravante a um fato muitas vezes pequeno?
Ou a prorrogação frustrada de um pecado mortal?

Oh, Mentirosos!
Se acham piedosos na vã tentativa
De evitar uma desnecessária agonia
Mas não passam de egoístas
Sem coragem de enfrentar sua própria perfídia!
Não mentem para nós, mas para si
Para acalmar sua própria consciência ferida!

No que é verdadeiro, não há lugar para a mentira!


domingo, 20 de setembro de 2009

Epifania


Numa escura noite de outono
Em frente ao hotel
A espera não deveria passar de dez minutos
Mas foi o suficiente para ver a encruzilhada

Dez anos atrás decidi seguir um caminho
Por estradas tortuosas avancei e recuei
Tentei seguir em frente
Mas esqueci para onde ia

Naquele momento percebi
Havia chegado ao destino
Exatamente um minuto atrás

Para frente não havia caminho visível
Percebi apavorado estar perdido
Deslocado como há dez anos não sentia

Compreendi que havia um novo caminho
Ainda a ser traçado
E seguir
Se essa escolha fosse minha

Em meio às reflexões
Decidi que conquistaria lugares e pessoas
E até aonde iria

A velha canção que tocava no rádio
Cujo nome não lembro ou nunca soube
E recordei de coisas que não faziam falta
Até aquele momento

E percebi
Que meu novo objetivo eram os lugares e pessoas
Que eu tive dez anos atrás
Mas que tinha deixado para chegar ao objetivo
Conquistado há um exato minuto

Meu novo rumo seria retomar tudo aquilo?
Retornar para o que não importava há dez anos atrás?

Não!
Foi quando me dei conta que há dez anos atrás
Eu não tinha conquistado lugares e pessoas
O que eu tinha ganhei apenas
E por isso não valia

O que importa não é ter lugares e pessoas
Mas conquistar lugares e pessoas

Durante aqueles dez minutos de espera
Em frente ao hotel
Naquela noite escura de outono
Retomei dez anos na minha vida
Vivi novamente os dez anos
E vivi os dez anos a partir deste ponto
Exatamente um minuto atrás

quarta-feira, 24 de junho de 2009

A camponesa

Era uma vez uma camponesa
Que vivia em um país bem frio
Ela adorava as cores
Principalmente o amarelo das flores
E o verde dos bosques
No inverno gostava de ver os desenhos congelados na janela

Um dia ela mudou para uma grande cidade
A mais européia de todas
Com muitos casarões e palácios
Que brilhavam no escuro das noites azuis
E nas estreitas ruas de paralelepípedos ecoavam os passos das carruagens

Após uma guerra
Ela foi viver na capital de seu país
Um lugar com cores diferentes e desenhos retos
Apesar da solidez dos prédios quadrados
Ela foi muito feliz em meio à bonecas de porcelana, vestidos de renda e ao som da balalaica

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A Carta

Parte 1

Estou em meu apartamento
Sentado na sala em frente a uma grande mesa
Limpo uma velha faca de prata
Sobre a mesa vários livros de poetas malditos, ferramentas e fumo
Atrás de mim, na janela, um relâmpago corta o céu escuro
Sua luz é muito fraca para iluminar a sala
Seu som está muito longe para que eu possa ouvi-lo
Mesmo assim, sinto o relâmpago
Uma tempestade está chegando

Caminho só pelo centro da cidade
É noite
Ando pelas ruas vazias e o som da sola de meus sapatos ecoa no asfalto
As luzes dos postes são fracas e intermitentes
Viro em uma rua larga de prédios altos
Um mendigo que dorme enrolado em sacos plásticos me lança ameaças, mas não se levanta para concretizá-las
Os trovões rompem o silêncio da noite
Paro em frente ao maior dos prédios
O porteiro estranha o horário, mas me conhece
O elevador faz muitos barulhos e treme
Olho para a porta elegante de um escritório
Tenho as chaves
Reviro todos os arquivos
Vasculho nos computadores
Lá fora os trovões ficam mais freqüentes

Periferia
Estou em frente a casa onde cresci
O enorme muro de pedras esconde a fachada
A cerca de arame farpado circular é nova, lembra um campo de concentração
A rua está completamente vazia e cheia de lixo
Pulo o muro
O cheiro de mofo enche minhas narinas
Ando pela casa abandonada
Meu pai morreu há quinze anos, minha mãe há seis
Um rato corre por entre meus pés
Procuro desesperadamente na estante de livros
Lá fora, um uivo é seguido pelo som da chuva castigando as telhas
A madeira do piso range a cada passo, exatamente como eu me lembrava, apenas mais escuro

Estou novamente em meu apartamento
Encharcado e sujo de terra
Pela janela posso ver a tempestade, com muitos raios e trovões
No armário, abro uma caixa pela primeira vez em anos
Lá está o livro
Ele me deu antes de morrer
Nunca li
E lá está a carta, usada como marcador na mesma página em que ele parou a leitura

Silêncio


sábado, 14 de março de 2009

Admito


Eu duvidei
Mas antes de buscar outros caminhos
Senti saudades

Primeiro ciúmes
Que logo ignorei
E tentando resistir
Eu confessei

Na minha dúvida
Duvidei de duvidar
Felizmente acordei

Admito

Felicidade


Eu consigo definir o significado da felicidade

Como uma situação em se tem tudo o que precisa

Mesmo tendo nada ou muito pouco

 

Como uma vez na praia

Deitado no colo da amada antes do pôr do sol

Ou aquela tarde na piscina com os amigos

Ainda talvez numa noite de domingo

Em que pedimos pizza e uma coca-cola tamanho família

MELANCOLIA


Existem momentos que fico tão triste

E sinto vontade de retornar para minha terra natal

O problema é que esse lugar não existe

Trata-se de uma cidade de novela regional

Com trilha sonora do Milton Nascimento

Cujas noites são enluaradas

E assombradas por um lobisomem

 

No final da tarde a agradável brisa fresca

Me arrepia os pêlos do braço

E o cheiro da grama molhada

Compensa os mosquitos esbarrando em nossos corpos

 

Tenho saudades dos amigos que nunca tive

E daqueles belos tempos que nunca existiram

Mundos e fundos


Dirijo com uma mão só
enquanto a outra se apóia na janela aberta
O vento bagunça meu cabelo
Não é um conversível
mas o teto solar cumpre esse papel
Poderia ver as estrelas
mas mantenho os olhos fixos no horizonte ao final da estrada

Estaria com meus óculos escuros
mas já é noite

Naquele bar a cerveja é gelada
Bebi muitas conversas por lá
Hoje não conheço ninguém
então não vou pagar pra entrar

No som toca um intricado bebop
provavelmente Charlie Parker
Sempre acho que é Charlie Parker quando o jazz é intricado

Na mesa dos fundos
tomo um duplo 12 anos
Na mesma mão seguro meu charuto
Lentamente a fumaça vai subindo até se espalhar no teto baixo
Enquanto isso
as pessoas entram
as pessoas riem
as pessoas dançam
as pessoas saem

Não sei pra onde vou
nem se quero chegar lá
O lugar que queria ir já não existe mais

As notas do piano gotejam sobre mim
e me lembram que não tenho casa

O ritmo dos tambores diminui
O ataque aos pratos dá lugar a um arrastado e repetitivo chiado
Não, isso não é bebop

Estou na praia
pelo menos é o que diz a brisa fresca
O chiado do mar nos fundos confirma a tese
Conversamos noite afora
Atiro as bitucas de cigarro nos fundos da piscina vazia

Eu odiava aquela cidade
mas sinto saudades

Naquela noite não rolou nenhum beijo
mas foi tão bonita
Da que rolou não tenho lembrança alguma
Ainda teremos outras lembranças como essa 

No final da festa

Quando os convidados começam a se retirar

Já um tanto quanto bêbados

A música toca mais baixa ao fundo

 

Fiquei sozinho no terraço

Sentindo a brisa da madrugada

E lembrando daquela tarde inocente

Quando podíamos ser o que quiséssemos

Antes do destino nos forçar

Nos tempos em que ainda não éramos

Aquilo que sempre tememos